O Istmo do Doutor Moreira

Publicação: 8 de maio de 2010

Revista História e Ciência

vol. 14 nº.7, Salvador, Julho de 1897

Ester Arias CarvalhoI;

IDoutora em história. Largo de São Francisco, nº 1, Rio de Janeiro – RJ – Brasil

RESUMO

O presente artigo trata do médico Afonso Fialho Moreira e das repercussões morais e científicas da aplicação de sua técnica do istmo de transfusão permanente à própria filha. Recorreu-se a jornais da época para ilustrar a natureza do imaginário popular em torno da cirurgia controversa e de suas estranhas consequências.

Palavras-chave: transfusão; istmo; Afonso Fialho Moreira (1719-1801), Mamadu Baldé, Maria Isabel de Almeida Moreira, Judite Moreno da Fonseca.

A primeira figura do mundo científico do qual trata o presente artigo era um médico e cirurgião respeitado mesmo antes da controvertida experiência à qual submeteu sua filha. Tornou-se famoso na década de 1760, ao identificar os grupos sanguíneos A, B, O e AB e explicar as reações imunológicas que levavam ao fracasso catastrófico e imprevisível muitas das primeiras experiências de transfusão de sangue entre humanos. Desde então, começaram a ser realizadas com relativa segurança, embora precisassem ser realizadas diretamente da artéria do doador para a veia do receptor, visto que anticoagulantes atóxicos só foram desenvolvidos nos anos 1790.

O doutor Moreira não se deitou sobre os louros da vitória. Tentou aplicar sua técnica em transplantes, principalmente de pele, com sucesso parcial. Identificou alguns dos fatores hoje conhecidos como antígenos leucocitários humanos (ALH), salvou muitas vidas e recuperou a autoestima de muitos desfigurados. Seu excesso de confiança resultou em erros e falsas promessas que mais de uma vez o levaram à barra dos tribunais, mas seu prestígio e a intervenção de bons advogados permitiram-lhe recuperar-se desses percalços. O Imperador Pedro II, com sua costumeira generosidade para com os súditos que faziam avançar a ciência e a educação, o fez Barão, depois Visconde da Praia Vermelha.

Segundo filho do Visconde da Marambaia, casado com a filha mais nova da antiga família aristocrática dos Condes do Lavradio, Moreira era um tradicionalista radical – um bandarrista, como então se dizia. Escreveu livros e artigos a contra a teoria da evolução de Zambi de Deus e os métodos anticoncepcionais popularizados pelas Indústrias Brás Cubas. Junto como seu tratado sobre a desigualdade humana, esses trabalhos o tornaram, por vários anos, a mais ilustre voz científica do conservadorismo monárquico e integrista.

O doutor teve seis filhos e filhas, das quais a caçula Maria Isabel de Almeida Moreira, a Bebel, nascida em 1767, revelou-se portadora de uma forma incomum de anemia congênita. Essa doença, uma forma grave de talassemia, passou a ser tratada com transplantes de medula a partir de meados deste século e com aplicações de células-tronco nos últimos anos, mas nenhuma dessas técnicas era imaginável nos anos 1770. Transfusões de sangue melhoravam temporariamente seu estado, mas havia poucos doadores viáveis. A menina era do raro tipo AB, enquanto o pai era A, a mãe B e seus irmãos A, B ou O. Além disso, pouco depois de começar a receber transfusões regulares dos poucos doadores do mesmo grupo sanguíneo que puderam ser encontrados, começou a desenvolver anticorpos contra seus grupos ALH.

O caso parecia não ter qualquer esperança além de um milagre e a família Moreira bem que o tentou. O pai viajou a Portugal e peregrinou a Santiago de Compostela, carregando a menina já sem forças para andar num palanquim, com ajuda de assistentes. Implorou a salvação da filha a toda a corte celestial, com todo o fervor de que um pai aflito é capaz. Sua fé comoveu multidões, que acompanharam a peregrinação dia a dia, pelos cabogramas transmitidas pelos jornalistas ao mundo, transformados por sacerdotes tradicionalistas em sermões dominicais e por donos de jornais conservadores em editoriais comoventes. Mas foi em vão. Bebel retornou ao Brasil mais doente do que saíra.

Foi no navio, na viagem de volta, que o doutor Moreira teve sua insólita ideia. Escreveu atabalhoadamente um artigo e o fez publicar, assim que chegou, no jornal conservador O Quinto Império que, acostumado a acolher seus textos políticos, não questionou seu conteúdo. Mas assim que publicado, o texto foi comentado e reproduzido, com ou sem licença, por toda a imprensa, incluindo os órgãos que mais antipatizavam politicamente com o doutor. Era sensacional demais para ser ignorado.

O doutor Moreira afirmava que se pudesse encontrar ao menos um doador inteiramente compatível, poderia tentar uma ligação permanente entre seu sistema circulatório e o de Bebel, equivalente a uma transfusão regular. Acreditava, também, que de alguma forma isso poderia gradualmente alterar a própria constituição da filha, de maneira a curá-la definitivamente depois de alguns anos. Nisso, estava enganado, mas era uma tese compatível com o pensamento médico do seu tempo. Ao concluir, implorou por voluntários que se dispusessem a fazer testes de compatibilidade sanguínea e histológica e explicava a natureza da operação em termos leigos. O doutor prometeu recompensar quem passasse nos testes de saúde e compatibilidade e se submetesse à operação com duzentos cruzeiros mensais pela duração da ligação (valor comparável aos vencimentos de um ministro ou vicerrei) e caso se conformasse a ela até quando o doutor julgasse necessário, receberia também um terço de sua herança, estimada em 90 contos de reis.

Apesar da simpatia da opinião pública pelo drama da menina, a proposta do doutor despertou repugnância. Alguns articulistas imediatamente a descreveram como “obscena” e um conhecido rival, o professor Carlos Moncorvo, escreveu no mesmo jornal dizendo-se estarrecido com a maneira como um homem de tão admirada religiosidade se revoltasse contra a vontade de Deus a ponto de propor tal monstruosidade.

Mesmo assim, centenas atenderam ao apelo por “jovens de boa saúde de ambos os sexos de até 25 anos, autorizados pelos pais se menores e de raça branca, de preferência portuguesa”. Não era por preconceito social, explicou mais tarde o doutor. Pensava na compatibilidade e, sabendo que seus testes tinham uma margem de erro, julgava correr menos riscos com pessoas da mesma “raça”.

Examinados, nenhum se enquadrou no incomum perfil imunológico de Bebel. O pai lutava para se conformar com o inevitável quando se ofereceu um empregado da clínica, um rapazola negro de 14 anos chamado Mamadu Baldé. O doutor lhe explicou que nem valia a pena tentar, quando tantas pessoas mais parecidas com Bebel, inclusive as da própria família, tinham se mostrado incompatíveis. Mas o garoto tanto insistiu que Moreira, por desencargo de consciência, assentiu. E para sua completa surpresa, descobriu que Mamadu e Bebel eram tão compatíveis quanto seus testes eram capazes de indicar.

Hoje, conscientes de quão superficiais são as diferenças entre as então chamadas “raças” humanas, isso nos parece fácil de explicar. Mais difícil é entender os motivos de Mamadu.

Issa Baldé, pai de Mamadu, era filho de um humilde imigrante guineense chamado Mossé e proprietário de um café. Sonhava com uma carreira de doutor para o filho, que estudava em um colégio público e na madraçal. Surpreendido pela atitude do filho, não a desaprovou, mas quis deixar claro que sua família não estava atrás de dinheiro, declarou que só autorizaria a operação se o doutor Moreira retirasse sua oferta. Queria apenas que o filho continuasse a receber seu salário de três cruzeiros mensais enquanto estivesse submetido à experiência, pois estaria impedido de trabalhar normalmente, e que o doutor se comprometesse a arcar com as despesas extras que o estado do moço pudesse exigir, inclusive uma educação especial, caso não pudesse freqüentar uma escola pública.

Mamadu parece não se ter queixado desses termos, nem nesse momento, nem depois. Jornalistas, cronistas e poetas da época criaram muitas histórias românticas e picantes sobre a paixão secreta entre o rapaz e a filha do doutor, mas ao examinarmos a documentação científica do caso, cuidadosamente arquivada na biblioteca da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro, essas interpretações nos pareceram completamente inverossímeis.

A família de Mamadu era vizinha da clínica do doutor Moreira e o rapaz lhe prestava pequenos serviços desde os dez anos de idade, não por necessidade, ao que tudo indica, mas por genuíno interesse na carreira médica. Embora registrado como “menino de recados”, desempenhava, na prática, o papel de auxiliar de enfermagem. Se acaso chegou a conhecer a filha do doutor quando ela ainda tinha uma aparência relativamente saudável, isso se deu quando ela tinha oito ou nove anos e pouco aparecia na clínica.

Mais tarde, o rapaz ajudou amistosamente a cuidá-la, mas a essa altura a menina só inspirava piedade. Nos dois anos anteriores à operação, Bebel tornou-se calva, pálida e esquelética, enquanto sua barriga inchava de maneira assustadora. O pai registrou metodicamente a progressão de seu estado, em chapas de vidro jamais publicadas, mas preservadas para estudo. Pude examiná-las e são impressionantes.

Como, então, explicar o oferecimento? Nos primeiros dias, o rapaz mencionou a um jornalista um sonho no qual ele e Bebel andavam juntos e muito amigos, ela muito grata e ele feliz por isso. O entrevistador o ironizou e Mamadu não voltou a tocar no assunto, mas considerando sua idade e formação religiosa, estou certa de que ele não mentiria sobre isso. Para sua cultura, sonhos bons eram enviados por Alá e não deviam ser desprezados, razão que também torna mais compreensível que sua família tenha se conformado tão rapidamente à sua decisão, que de pronto poderia ter vetado. A seus olhos, era um destino designado por Alá. Maktub, “estava escrito”, dizia Issa a quem quisesse ouvir. Desejos inconscientes podem ter estado por trás desse sonho. Talvez o orgulho por ter em seu poder a vida de uma jovem rica e a felicidade de um homem poderoso, ou a vontade de mostrar que Alá podia mais que os santos cristãos. Mas não hesito em afirmar que seu gesto de amizade e compaixão foi de uma nobreza e generosidade comoventes.

Depois de uma semana de preparação, a operação foi realizada em 15 de dezembro de 1779. Não cabe esmiuçar aqui os pormenores. Basta dizer que os sistemas circulatórios dos dois adolescentes foram conectados por artérias dos antebraços, formando o que o doutor chamou de “istmo arterio-venoso radio-ulnar” e a imprensa de “istmo do doutor Moreira”. A ligação foi assegurada por placas e pinos de platina que prendiam solidamente os ossos do antebraço direito de Mamadu, que era canhoto, ao antebraço esquerdo de Bebel. Devido à fragilidade desta, a usou-se apenas anestesia local (cocaína).

O médico não permitiu o acesso de estranhos ao quarto dos pacientes, mas os dias de sofrimento dos jovens, de angústia do pesquisador e de dúvidas dos enfermeiros e assistentes foram minuciosamente registrados. Só ao fim de quatro semanas, o doutor permitiu-se chamar a imprensa para comunicar que a cirurgia tivera bom sucesso. Alguns jornalistas tiveram acesso quarto de Mamadu e Bebel e foram atendidos com serenidade e bom-humor. Segundo os testemunhos, a menina já recuperara a cor e o cabelo voltava a crescer. As chapas não permitem discernir tais minúcias, mas mostram a menina deitada no leito, ainda muito magra, com uma expressão viva e sorridente.

Pouco depois, os jovens começaram a aprender a andar, atender suas necessidades e viver como xifópagos artificiais. Este aspecto da experiência foi o que mais me fascinou quando me dispus a pesquisar o tema para minha tese de doutorado. Para melhor compreender as implicações, fiz-me amarrar a meu namorado pelo antebraço por todo um fim-de-semana prolongado e posso afirmar que essa é uma prova infernal.

O menor gesto de qualquer dos dois – vestir-se, despir-se, coçar-se, comer, cuidar da higiene íntima – implica pedir com clareza a participação atenta e consciente do outro. É impossível agir de maneira livre e casual. Para a parceria funcionar, é preciso que, mesmo nos atos mais insignificantes, um se submeta sem restrições à vontade do outro. Pode-se fazer isso de maneira alternada, mas quando um cede a iniciativa ao outro, precisa confiar e deixar-se usar, assumir sem hesitar o papel de escravo, de instrumento, de objeto.

Ao fim de três dias, não conseguíamos mais nos olhar na cara e, se tivéssemos que continuar assim por muito mais tempo, meu companheiro e eu acabaríamos por nos odiar. Imagino mesmo que um de nós – talvez eu – acabaria por matar o outro. Adquiri um profundo respeito por Mamadu e Bebel que viveram assim por tantos anos e, conforme todos os testemunhos, em razoável harmonia.

Seis meses depois, a dupla caminha rotineiramente pelas ruas e parques, como atestam tanto os registros médicos, quanto os jornais e os lambe-lambes das ruas do Rio de Janeiro. Bebel tornara-se uma mocinha saudável de rosto cheio, cativante sorriso de covinhas, longos cabelos loiros e olhos claros e brilhantes. Andava sobre tamancos de plataforma alta para ficar mais cômoda ao lado de Mamadu, que combinava a postura de um cavalheiro com um encantador sorriso de moleque.

Havia relações sexuais entre eles? Os minuciosos registros médicos são omissos quanto a isso, mas me é difícil imaginar que um casal de adolescentes forçados a compartilhar sua intimidade dia e noite não se experimentassem um ao outro, ao menos enquanto não se cansassem da novidade. O doutor deve ter ponderado e aceitado o inevitável. Posso imaginá-lo todo embaraçado, ao fornecer e explicar à filha e ao rapaz os meios anticoncepcionais que tanto condenara em outros tempos. A essa altura, provavelmente já reconsiderava suas opiniões políticas e religiosas, pois era atacado por seus antigos aliados e defendido por muitos dos que antes votara à danação eterna.

As insinuações sexuais estavam presentes desde os primeiros ataques ao “experimento indecoroso e antinatural”, antes mesmo de sua execução, mas o que realmente incendiou a polêmica foi a questão religiosa. Quando Mamadu pôde movimentar-se, voltou a orar regularmente à maneira muçulmana, prostrando-se até encostar a testa no chão. Bebel estava costumada a rezar antes de dormir. Em particular, os dois parecem ter resolvido isso à sua maneira, como a seus demais inúmeros problemas do dia-a-dia, mas quando a questão foi a público, foi um Deus-nos-acuda. E um Alá-nos-acuda.

Não se podia conceber que um homem rico e religioso deixasse de providenciar uma missa de agradecimento pelo sucesso da operação e restabelecimento da filha, nem sequer que deixasse de providenciar para que ela voltasse a comungar. Mas como se confessar, com um parceiro a tiracolo? Quais as implicações de compartilhar a circulação sanguínea e, portanto, a absorção do corpo de Cristo com um não-cristão? Mamadu, apoiado pela família, cobrou o direito de orar regularmente na mesquita. Mas tanto nas igrejas quanto nas mesquitas, homens e mulheres ficavam tradicionalmente em setores separados: como lidar com um casal inseparável?

Desde que Dom Sebastião rompeu com o Papa e fundou a Igreja Ecumênica, cristãos, muçulmanos, judeus, budistas, zoroastristas, hindus e pagãos do Império foram formalmente irmanados na mesma comunidade religiosa, dentro da qual deviam reconhecer-se mutuamente como diferentes ritos de adoração a uma mesma realidade sobrenatural e superior. Como se sabe, desde o início houve minorias que se recusaram a reconhecer a unificação formal e, mesmo para a maioria, a unificação, na maior parte do tempo, existia apenas da boca para fora.

Algo análogo acontecia na Comunidade Holandesa e seus aliados. As igrejas protestantes diferiam entre si, tanto teoria quanto na prática, muito menos que os “ritos” da Igreja Ecumênica. Seus líderes e teólogos se diziam de acordo sobre as questões essenciais e a maioria delas participava de um Conselho Mundial de Igrejas Reformadas. Mesmo assim, não eram poucos os membros do baixo clero e fiéis exaltados que condenavam ao inferno quem não pertencia à sua denominação específica.

Na Comunidade, como no Império, as questões sectárias e religiosas expressavam de forma indireta e distorcida tensões sociais e étnicas exacerbadas pelas rápidas transformações da economia e dos costumes. Até certo ponto, serviam aos conservadores para confundir ou atrasar a compreensão da verdadeira natureza dos interesses em jogo por parte das novas forças sociais que os ameaçavam, embora haja muito a discutir sobre o grau de consciência que uns e outros tinham da natureza do conflito.

O encanto especial deste estudo está em compreender como dois adolescentes, conscientemente ou não, se aproveitaram da posição insólita e estratégica no campo do enfrentamento religioso e político para jogar com a tensão entre as confissões, as etnias e as classes sociais. Jogaram no sentido literal, lúdico. Embora se expressassem com seriedade, também se divertiam com a repercussão de suas demandas, com a mais absoluta cumplicidade. Sem contestar as reivindicações do outro, cada um acrescentava as próprias e ambos insistiam juntos, obrigando o mundo a ajustar-se às suas necessidades.

Os resultados foram muito interessantes. Como expliquei de maneira mais pormenorizada em minha tese de doutoramento, seus pedidos aparentemente pontuais e inocentes obrigaram a cúpula e os ritos da Igreja Ecumênica a questionar-se em suas relações mútuas, suas regras, seus ritos e seus discursos, de uma maneira completamente imprevista. Sem querer – ou querendo? –, foram bem-sucedidos em derrubar obstáculos contra os quais cinco imperadores não puderam ou não quiseram lutar. E que o sexto, apesar de inconformado com as conseqüências, não conseguiu reerguer.

O povo e a opinião pública pressionaram os ritos a se entenderem e aceitar que uma cristã participasse dos rituais islâmicos no ambiente masculino e vice-versa. Numa decisão inesperada, o conselho de ulemás do Rio de Janeiro aprovou por unanimidade uma fatwa autorizando a cristã a comparecer às orações nas mesquitas. O Tribunal Eclesiástico Católico Regional apressou-se a fazer o mesmo em relação a muçulmanos nas igrejas cristãs.

Apesar da tensão, da expectativa, e dos murmúrios nas galerias descritos pelos jornalistas, nada desagradável aconteceu na primeira vez que Bebel foi à mesquita do Botafogo. Com a cabeça coberta por um véu, ela acompanhou serenamente os movimentos de Mamadu sobre um tapete de orações de tamanho duplo. Mas dois dias depois, na manhã do domingo ele a acompanhou à missa cristã na matriz de São João Batista e um grupo de rapazes se postou à porta para impedir a entrada do par. O doutor Moreira quis discutir e foi insultado por um dos mais exaltados. Um grupo de populares indignados interveio em favor do médico e iniciou-se uma feroz pancadaria, que enviou quatro ao Hospício da Santa Casa da Misericórdia e treze à delegacia de polícia.

O escândalo foi às primeiras páginas de todos os jornais. O Quinto Império saiu em defesa dos jovens da Sociedade Gonçalo Anes e de sua luta pela conservação da pureza da tradição cristã, mas O Diário Carioca os acusou de envergonhar a comunidade cristã, A Voz do Quilombo denunciou a truculência a serviço de idéias medievais e O Monitor do Humanitismo o atentado contra a mais pura e espontânea manifestação da unidade de Humanitas. Uma corda sensível do povo carioca foi tocada. As massas que, durante meses, haviam acompanhado o drama de Bebel e Mamadu, enfureceram-se e depredaram a sede da sociedade tradicionalista.

Nos dias seguintes, grupos de cristãos, muçulmanos, judeus e outros se proclamaram voluntários para proteger os dois jovens e falou-se de criar uma guarda pessoal. Mas muito mais importante foi o movimento de muçulmanos que foram em grupos às igrejas e de cristãos que se apresentaram nas mesquitas para afirmar sua solidariedade com Bebel e Mamadu e reabrir as portas emperradas da fraternidade ecumênica. Para não ficarem à margem, logo judeus abriam seu caminho em ambas as comunidades, que por sua vez cobraram o direito de assistir às cerimônias nas sinagogas. Hindus compareceram a terreiros, budistas a pajelanças e assim por diante. A moda logo se espalhou para outras cidades do Império. Para prevenir distúrbios, o Supremo Conselho Ecumênico, em Salvador, recomendou a todas as instituições eliminarem quaisquer empecilhos à participação ordeira de pessoas de outros ritos. A dupla pôde, desde então, entrar nas igrejas e mesquitas que bem entendesse.

É como se a cirurgia do doutor Moreira catalisasse uma revolução pronta para acontecer e, mais que isso, a direcionasse de uma maneira singularmente produtiva. Em outras terras onde as tensões da modernização igualmente se acumularam, o resultado mais comum foram cenas de violência descontrolada, com expulsão de comunidades inteiras. Se me permitem uma especulação, não me parece absurdo supor que, sem Bebel e Mamadu, talvez a revolta da Armada de 1781 tivesse outro desfecho e a revolução de 1796 fosse mais sangrenta, resultando num século XIX mais brutal e menos promissor.

No segundo semestre de 1780, os jovens retomaram os estudos – e apesar do doutor Moreira insistir em professores particulares, a dupla fez questão de voltar às escolas, com apoio da família de Mamadu. Foi preciso quebrar mais um tabu da época, o da separação de meninos e meninas nas escolas. De manhã, iam às aulas de Bebel, que retomava a escola elementar, à tarde, às de Mamadu, que iniciava a secundária.

Nesse período, deram-se os acontecimentos que prepararam e precipitaram a tentativa de golpe conservador no Rio de Janeiro e a resposta militar e popular conhecida como a Revolta da Armada. Tanto quanto o professor Zambi de Deus, Visconde da Boa Vista ou Brás Cubas, Marquês da Gamboa, o doutor Moreira e seu experimento foram alvos lógicos do terrorismo bandarrista, do qual escaparam por um triz, graças à boa sorte e à atuação brilhante do consultor investigativo Flávio Ilha e da icamiaba Guataçara Turymembyra.

A família Moreira também sobreviveu, ilesa, aos combates de 1781. A clínica na Praia Vermelha sofreu danos, assim como o vizinho Hospício Pedro II, na troca de tiros entre os encouraçados rebelados e as fortalezas da Barra do Rio de Janeiro, mas a família refugiou-se a tempo na fazenda de Itaguaí que o Doutor acabara de herdar do pai.

Restabelecida a ordem e passado o susto, a família retomou aos poucos a vida de antes. Apesar das limitações, Mamadu teve um desempenho escolar muito bom e ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade do Rio de Janeiro em 1786, com Bebel a tiracolo. As mulheres já tinham uma presença regular no ensino superior desde os anos 1760, mas seu caso foi excepcional. Ela não pretendia estudar medicina, nem seu desempenho escolar estava à altura dos padrões da Faculdade, mas não queria atrapalhar a carreira do parceiro e também não podia passar o tempo sem fazer nada. Esforçou-se por aprender o que pudesse e acabou por receber um diploma de enfermeira honoris causa, por seu empenho em acompanhar Mamadu em todas as suas atividades, das primeiras dissecações de cadáveres aos estágios clínicos.

Mas isto é antecipar demais, pois antes disso se deram outros eventos críticos. Poucos meses depois de Mamadu iniciar o curso superior, faleceu Pedro II e subiu ao trono João VI, simpático à causa conservadora. Embora oficialmente não endossasse o extremismo bandarrista e sua pretensão de impor a todo o orbe terrestre o Sagrado Quinto Império Universal Cristão de Portugal, Brasil e Algarves e iniciar a Era do Espírito Santo, sabe-se que o príncipe cooperava em sigilo com a Sociedade Gonçalo Anes desde os anos 1770.

Desde a coroação, o novo Imperador pregou a necessidade de garantir um “Novo Século Luso-Brasileiro” e de articular uma cruzada contra o Califado, cujas mal definidas fronteiras eram um fator de instabilidade desde que os russos entraram em Constantinopla. Oficialmente, era uma questão de geopolítica e de abertura de mercados, mas a ideia de uma aliança com o Sacro Império Romano-Francês e o Czar da Rússia contra os muçulmanos era inseparável, na prática, da hostilidade à religião e à cultura islâmicas e da busca de reconciliação com o Papa e com o conservador e purista cristianismo europeu.

Se isso ainda não era evidente para todos, era claro o bastante para os estudantes mais politizados das grandes cidades.  Os sete anos de faculdade de Mamadu e Bebel foram dos mais agitados da história da educação superior no Brasil e sua posição peculiar fez deles símbolo e eixo do debate político nas universidades do Rio de Janeiro, se não do Império. Eles não se limitaram a deixar-se usar como bandeira da oposição inicialmente reformista, depois republicana, finalmente revolucionária: participaram ativamente do movimento, incitando movimentos paredistas e passeatas. Curiosamente, Bebel parece ter sido a voz mais ativa. A grande imprensa deixa essa impressão, ao descrever a participação deles nos comícios e é preciso atribuir a ela – tanto pela assinatura, quanto pelo estilo – pelo menos dois terços dos artigos publicados por eles nos jornais estudantis.

Em 1791, deu-se um incidente decisivo. Mamadu e Judite Moreno da Fonseca, estudante de direito do segundo ano de origem judia, revelaram, depois do que parece ter sido uma longa hesitação por parte de ambos, que ela estava grávida e ele era o pai da criança. O caso foi tratado na primeira página de O Quinto Império como “um escândalo maiúsculo, a desnudar a devassidão dos jovens que pretendem ditar lições de moral, religião e política ao próprio Imperador, quando sua rotina de selvagens e desregradas bacanais envergonharia Messalina e faria corar Calígula!”

O jornal, aludindo a “fontes dignas de crédito” sem especificá-las, afirmava com todas as letras que os estudantes da Universidade se juntavam todas as noites em orgias satânicas. Periódicos simpáticos à causa reformista se calaram, ou ridicularizaram a imaginação “fértil e imunda” dos editores bandarristas, cuja causa, a essa altura, se confundia com a dos joanistas, os partidários incondicionais do Imperador João VI.

A imprensa da época dividiu-se sobre o acontecimento de acordo com linhas rigorosamente partidárias. Hoje, que podemos ver o assunto com distanciamento e não nos escandalizamos com comportamentos sexuais não convencionais, podemos nos perguntar se houve mais que uma relação a três sem assumir o ponto de vista de O Quinto Império. Procuramos abordar a questão pelo método da história oral, recorrendo a entrevistas efetuadas de 1894 a 1896 com filhos octogenários ou nonagenários de estudantes dos anos 1790 e de outras pessoas próximas dos protagonistas dos eventos.

Alguns disseram ter ouvido de seus pais histórias muito parecidas com as relatadas pelo Quinto Império, outros as negaram totalmente, acrescentando alguns detalhes que podem ter alguma base real ou serem produto da fantasia deles ou de seus pais. Mas de quatro dos quinze entrevistados, ouvimos uma terceira versão, consistente em detalhes e aparentemente não derivada da imprensa ou de terceiros. Segundo estes, também Bebel tinha um amante – um estudante de outra faculdade, lembrado como Quim ou Quinzinho – que se amedrontou e desapareceu de cena quando o escândalo veio à luz.

Muitos testemunhos concordam em que universitários de diferentes tendências políticas eram dados a farras desregradas. Alguns dos nossos entrevistados lembram-se de seus pais a confidenciarem saudades dessas experiências. Mas os perfis de Mamadu e Bebel que emergem das memórias de sua passagem pela faculdade é de jovens ousados e sonhadores, discretos quanto à sua vida amorosa até serem surpreendidos pela gravidez de Judite. Estamos inclinados a crer, sem poder afirmar certeza absoluta, que o par pode ter-se engajado em um quarteto sexual e amoroso, mas não em sexo grupal casual.

Quanto ao satanismo, não teria passado de lorotas, contadas por brincalhões para escandalizar os mais carolas. Combinadas, talvez, com o ocasional comparecimento de Mamadu e Bebel, bem como de outros jovens do seu círculo, a pajelanças e candomblés – ritos tidos com “satânicos” pelos bandarristas –, em sinal de confraternização ecumênica.

O maior interesse do episódio está, porém, em como os jovens o reverteram a seu favor. Enquanto O Quinto Império subia o tom das catilinárias, deputados das cortes recolhiam assinaturas para uma comissão parlamentar de inquérito destinada a apurar “as responsabilidades pela anarquia nas Universidades Imperiais e recomendar providências”, Mamadu, Bebel e Judite anunciaram que se casariam na Catedral Ecumênica do Rio de Janeiro, a ser oficiado por um cádi, um padre e um rabino, mas de acordo com a lei muçulmana, a única a permitir a poligamia.

O anúncio do casamento conquistou a opinião pública. Não só os jornais do Rio de Janeiro como de outras grandes cidades imperiais, inclusive Piratininga, Salvador, Belém, Brasília, Bons Ares, Paraguai, Lagos, Lisboa, Mazagão e Goa, deram aos preparativos e à cerimônia uma cobertura 10% a 80% mais extensa, em média, do que haviam dado ao casamento do Príncipe Imperial, quinze anos antes. O Doutor Moreira, refugiado incomunicável em Itaguaí desde o início do escândalo – e que, segundo boatos referidos por mais de uma fonte, estaria se preparando expulsar Bebel de casa – reapareceu timidamente, dizendo-se contente com a decisão da filha e presenteando o trio com um de seus sobrados.

Mais uma vez, os ritos da Igreja Ecumênica foram pressionados a flexibilizar suas normas, desta vez com ainda mais pressa. O casamento pôde ser celebrado depois de três meses, numa cerimônia que parou a cidade. Três meses depois, Mamadu e Baldé fizeram o parto da criança, Rebeca da Fonseca Baldé, que esta pesquisadora teve o prazer de conhecer em vida como bisavó do homem com quem veio a se casar.

A ofensiva joanista, desorientada, perdeu o rumo e o ímpeto: o casamento ecumênico e o nascimento de Rebeca consolidaram a simpatia popular pelo movimento estudantil, pelo ecumenismo e mesmo pela revolução nos costumes que vinha se impondo pouco a pouco desde os anos 1760, mas até então fora muito mais polêmica. Em 1792, o soberano e o Senado tiveram de voltar atrás e revogar a nova lei do serviço militar obrigatório, depois de marchas e manifestações massivas terem paralisado todas as capitais do Império.

No ano seguinte, Mamadu, já formado, tornou-se interno do Hospício Pedro II e Bebel o acompanhou na posição de assistente e enfermeira. Nunca chegaram a ter maior brilho acadêmico ou profissional, mas foram tidos como profissionais muito humanos e dedicados. Afastaram-se do movimento estudantil e mesmo da militância em geral, mas vez por outra eram entrevistados sobre a atualidade política e deram sinais de radicalizarem suas posições junto com o movimento do qual haviam participado. Se em 1790 ainda se falava de monarquia constitucional, em 1794, a palavra de ordem era a República Democrática, Federativa e Cooperativista, proposta que cinco anos antes só era defendida pela ala mais radical do Partido Quilombola. A essa altura, o próprio Doutor Moreira, bem como a maior parte da família – salvo Afonso Júnior, o primogênito – confessava simpatias republicanas. Nesse ano, nasceu o segundo filho de Judite, chamado Moisés em homenagem ao recém-falecido avô de Mamadu e às origens da mãe.

As tensões continuaram a se acumular no ano seguinte e explodiram em 1796 quando, ao ver bloqueada pelo próprio Senado uma proposta crucial de rearmamento e reorganização das Forças Armadas, João VI tentou repetir em maior escala o golpe de 1781, dissolvendo o Parlamento e decretando o estado de sítio em todo o Império, alegando a necessidade de travar batalha com o “inimigo interno”. A guarnição do Rio de Janeiro acatou a ordem imperial e saiu às ruas prendendo os supostos líderes da subversão – incluindo Mamadu, Bebel e Judite, apesar de afastados há anos da militância propriamente dita.

Difundiu-se nos dias seguintes o rumor segundo o qual os três estavam sendo torturados e por muito tempo isso ficou na memória popular como verdade incontestável. Creio, porém, que minha pesquisa demonstrou satisfatoriamente que isso não aconteceu. Foram tratados a empurrões, humilhados, insultados e ameaçados, mas não chegaram a ser vítimas de maior violência física, ao contrário de algumas outras lideranças da oposição.

Judite perdeu a terceira gravidez na prisão e a saúde de Bebel pareceu se deteriorar depois disso, o que ajudou a consolidar o boato. A situação sem dúvida lhes causou sofrimento e nem o movimento revolucionário tinham interesse em minimizar as arbitrariedades cometidas pelo Antigo Regime em sua agonia.

Três meses depois, estavam em liberdade. João VI estava deposto e confinado na ilha de Santa Helena. O Marechal Xavier presidia o governo provisório da República Federativa do Brasil, era concedida a independência aos vicerreinos do ultramar e iniciava-se uma onda mundial de revoluções e a queda de inúmeros outros tronos.

No meio de tantas convulsões, não é de se espantar que o noticiário tenha esquecido Mamadu, Bebel e Judite, pouco depois de saudá-los entre os heróis da revolução democrática. Para acompanhá-los nos anos seguintes, dependemos muito mais da história oral, principalmente da memória de seus filhos e netos. Judite exercia a advocacia em meio período, em um escritório do Flamengo. Mamadu e Bebel continuaram a trabalhar no antigo Hospício Pedro II, rebatizado Hospital dos Revolucionários de 1796, mas com freqüentes interrupções, devido a febres e indisposições. A família Moreira perdeu boa parte de sua fortuna com as reformas agrária e urbana e isso deteriorou o relacionamento de Bebel, revolucionária intransigente, com os irmãos.

Por outro lado, depois de perder o terceiro filho, Judite engravidou mais uma vez e em 1798 teve um par de gêmeos chamados Afonso e Issa, em homenagem aos dois avôs. Apesar das dificuldades daqueles tempos conturbados e dos problemas de saúde crescentes de Mamadu e Bebel, Rebeca recordava uma infância feliz e um relacionamento afetuoso entre seu pai e o que considerava suas duas mães. Lembra que pelo menos por alguns meses Bebel teve um namorado, com o qual os três ocasionalmente se trancavam. Não era o mesmo do tempo da faculdade e sim um certo Cauã, indígena de Paranapuã, do qual não consegui maiores informações.

Em 1801, faleceu o Doutor Moreira e Bebel, enojada com a disputa entre os irmãos pelo espólio emagrecido, abriu mão de sua parte na herança. Nos meses seguintes, sua saúde ficou cada vez mais incerta e, dois anos depois, ela e Mamadu requisitaram uma pensão por invalidez, rapidamente concedida pelo governo Gonzaga. Contam os filhos como inicialmente ficaram muito felizes por terem Mamadu e Bebel próximos, mas depois se preocuparam cada vez mais com seu enfraquecimento evidente.

Em março de 1806, Mamadu e Bebel foram hospitalizados às pressas e os médicos concluíram que a talassemia dela se agravara a ponto de condenar ambos à morte em questão de semanas, caso o istmo do Doutor Moreira não fosse desfeito. Se o fosse, Bebel morreria imediatamente, mas Mamadu poderia recuperar-se.

Ao compreender a situação Bebel pediu que a ligação fosse rompida: Mamadu já lhe dera tantos anos, não era justo privá-lo das felicidades que ainda poderia ter, muito menos privar os filhos do pai e a esposa do marido. Mamadu resistiu: não podia abandoná-la agora, queria ficar com ela até o último momento, depois que o separassem. Os médicos tentaram convencê-lo de que era arriscado, pois no estado em que estavam, ele podia mesmo morrer antes dela. Mesmo assim, ele permaneceu irredutível por dias.

O impasse e o dilema ético dos médicos foram rompidos por Judite, que acabou por convencer Mamadu a permitir a separação. A operação foi feita e os três enviados para casa, sob cuidados especiais. Rebeca lembra-se de como ficou angustiada e aterrorizada quando viram ela e Mamadu voltarem do hospital. Era como se uma pessoa que amava chegasse cortada em duas partes ainda vivas, “como uma minhoca cortada por uma pá”. Mas a situação pouco durou: Bebel faleceu depois de três dias, nos braços de Judite e Mamadu e foi a última vez que o caso voltou às primeiras páginas dos jornais.

A recuperação de Mamadu ajudou os filhos a superarem o trauma. Depois de alguns meses, voltou a clinicar. No ano seguinte teve mais uma filha, chamada Maria Isabel, e daí em diante levou uma vida normal, modesta e razoavelmente feliz com Judite, até aposentar-se em 1830. Seu falecimento, cinco anos depois, deu-se no auge da disputa eleitoral pela sucessão da presidenta Maria Quitéria e mal foi anotado pela imprensa, focada no debate entre Cosme Bento e seu adversário afinal derrotado, Francisco de Lima e Silva. Judite viveu até 1849 e seu obituário foi um pouco mais notado. O presidente Francisco Vinagre a homenageou e seu nome, bem como o de Mamadu e Maria Isabel, foi dado a algumas praças, avenidas e hospitais, cujos frequentadores e usuários hoje raramente se perguntam sobre quem foram essas pessoas.

Já no início de sua carreira médica, Mamadu via as transfusões de sangue tornarem-se rotina e seu hospital participou de algumas das primeiras operações de transplante não só de medula óssea, como de rins, fígado e coração, que se tornaram gradualmente mais seguros. Salvo por uma operação mal-sucedida nos anos 1790, o istmo do Doutor Moreira nunca mais voltou a ser tentado.

Para a medicina, não passou de um experimento desesperado e de conseqüências curiosas, mas que pouco contribuiu para o avanço da ciência. Creio ter demonstrado, porém, que do ponto de vista da história social e política, a importância do caso foi muito maior do que a atribuída por quase todos os historiadores dos últimos cem anos que chegaram a mencioná-lo. Ligou não só duas pessoas, como também diferentes culturas religiosas em processo de afastamento e reuniu estudantes e intelectuais às massas populares. Contribuiu talvez decisivamente para o sucesso da revolução de 1796 e para a conformação do Brasil republicano e do mundo em que vivemos.

Assim pensa também o professor Alfredo Taunay, orientador da tese que originou este artigo, a quem a pesquisadora reconhece todo o mérito por ter sido o primeiro a reconhecer inteiramente a importância destes eventos e tê-los sugerido como tema do seu doutoramento. Ela também agradece às inúmeras pessoas fascinantes que ajudaram a trazer esta história quase esquecida de volta à luz, inclusive aquela que veio a ser seu marido.

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     “O Istmo do Doutor Moreira”

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