Idílio em Agarta

Publicação: 5 de agosto de 2012

Drauna, o instrutor, era um recém-graduado. Com certeza, passara pelo mesmo tormento poucos anos antes, mas nem por isso deixou de descompor os rapazes em altos brados:

– O que vocês pensam, que são bichinhas yavanas representando alguma comédia? Vocês são tautas, ou serão guerreiros ou cadáveres! Quero ver determinação! Isto é Agarta!

Mandou-os repetir tudo, pela nona vez naquela tarde:

– Pelotão, em forma!

Vasu reprimiu um suspiro. Ele e seus camaradas outra vez formaram fileiras, com pontas dos pés e das armas alinhadas no que lhe pareciam retas perfeitas, afastados mais ou menos um cúbito entre os ombros para que pudessem virar sem esbarrar nos mosquetes um dos outros. Todos feitos como de um mesmo molde, altos, fortes, espadaúdos, de cabelos curtos, loiros ou alourados e de olhos claros, produto de dois mil anos de cruzamentos seletivos promovidos por sacerdotes para produzir os melhores guerreiros. E mesmo assim não satisfaziam o instrutor que, mais uma vez, olhou-os com desgosto e gritou para alguém corrigir um desvio infinitesimal de postura. Pelo menos, desta vez não era com ele.

– Passo de martelo, mover!

Marcharam, tão sincronizados quanto possível, pernas retas e duras, pés elevados até a altura do joelho. Desta vez, por algum milagre do deus da guerra Parkunas, o instrutor não encontrou o que criticar, apesar do olhar feroz. Deram uns cinquenta ou sessenta passos e então veio a nova ordem:

– Girar ao escudo!

Agora era que a javalina torcia o rabo. A manobra tinha de ser perfeita: o soldado na ponta esquerda – mão do escudo, como se dizia mesmo se há gerações não os usavam – deixava de avançar, marchava no mesmo lugar e girava devagar, sem perder a cadência, enquanto o da ponta direita controlava a velocidade e os demais cuidavam de manter o alinhamento perfeito enquanto giravam em torno do soldado parado que servia de eixo. Desta vez o giro saiu menos incorreto ou o instrutor estava tão farto quanto eles, pois os deixou completar a manobra sem impropérios. Ordenou mais algumas manobras mais simples e os dispensou.

O pelotão de Vasu recolheu-se ao quartel. Guardaram as armas, despiram-se e tomaram uma ducha de água gelada da montanha, trazida por um aqueduto rústico. Vestiram de novo o uniforme, mais leve do que o desejável, mas espantaram o frio da noite sorvendo o ensopado negro e fumegante e o tédio dos exercícios militares com a cerveja aguada e morna que o acompanhava. Os humores do grupo melhoraram

– Qual a diferença entre uma mulher mugal e uma galinha assada? – Propôs o vizinho de mesa.

– Essa é velha demais. A galinha não grita quando é comida – respondeu outro. – Eu sei uma melhor: por que os deuses criaram o orgasmo?

Ninguém tinha uma resposta na ponta da língua. Vasu ia ingenuamente arriscar algo sobre comunhão com o divino, mas o próprio instrutor respondeu:

– Para os atlantes saibam quando parar de foder!

Vasu riu, como todos os outros, pela fantasia proibida que lhe saltou, incontrolável, ao olho da mente: Atlântida como um antro de lascívia sem fim, uma orgia interminável. Mas era mais imaginativo do que a maioria dos companheiros de mesa e talvez tenha sido o único a se perguntar se aquela imagem seria mesmo verdadeira.

Vez por outra, vira um atlante, mercador ou diplomata, passar pelas ruas de Manova, com seus trajes vistosos e joias cintilantes. Se não fosse proibido conversar com os estrangeiros, gostaria de perguntar em particular a um deles como era viver naquela terra e se lá se nadava em luxo, excessos e perversões, como advertiam os sacerdotes ao anunciar a queda próxima daquele império decadente. Pois não reinava uma completa anarquia na sua própria capital?

Quanto a ele, na hora em que custava a dormir e precisava de alívio, tentava apenas imaginar o dia em que os sacerdotes o uniriam com uma mulher, prazer e dever em plena harmonia.

 

A expectativa de Vasu em relação aos feriados era ambivalente. Ansiava pela oportunidade de espairecer fora do quartel e ver outras pessoas, mas odiava a obrigação de visitar a família e participar de rituais cansativos. Mas não tinha opção. Aliás, raramente tinha ocasião de escolher o que quer que fosse e dava exagerada importância às raras ocasiões em que lidava com alternativas.

Devia ir com este ou aquele uniforme? Túnica e bombachas de rami bege, com faixa e lenço vermelhos, eram quase iguais. O uniforme de gala, de algodão e mais elegante e decorado, seria mais adequado para uma ocasião festiva, mas da última vez alguém insinuara algo sobre sua aparência ser suave demais para um guerreiro. Escolheu o uniforme mais gasto, o que lhe dava um aspecto mais marcial e disfarçaria a ausência de uma cicatriz vistosa. Um dos paradoxos de sua vida: hábil nas armas, jamais sofrera ferimentos sérios e por isso mesmo sua vocação guerreira era posta em dúvida. Havia quem se deixasse propositalmente ferir no rosto para parecer mais belicoso, mas aquilo lhe parecia estúpido. Se acontecesse, paciência, mas para que deixar-se estupidamente ferir? Não era obrigatório e lhe parecia a antítese do que deveria ser um guerreiro.

Como os demais, tomou um desjejum de caldo de carne, pôs por cima a capa de encerado, proteção contra o frio da madrugada e a lama da estrada, e pôs-se a caminho antes da alvorada. Havia um caminho que descia para a estrada larga e bem pavimentada às margens do rio Dhauta, pela qual se chegava à entrada principal da cidade. Mas se esperava dos guerreiros que seguissem a trilha difícil, que subia a cadeia de colinas que separa o Vale dos Tautas da metrópole de Manova. O grupo, animado com a quebra da rotina, cantava uma marcha militar:

Seguir, lutar e marchar

Ouvir do inimigo o pranto

Agarta só irá brilhar

De todo o mundo o espanto

Ao chegarem ao alto do morro, o sol trazido aos céus pelos dedos rosados de Hauasa, a Aurora, revelaram de repente uma paisagem tão grandiosa que os rudes aprendizes de guerreiros se detiveram em admirado silêncio. Na maioria das vezes, as brumas matinais limitavam o alcance da visão, mas aquele dia fora premiado com um céu de clareza excepcional, que fazia daquele recôncavo no mar de Helcar um espetáculo incomum.

A cidade de Manova e as colinas que a limitavam formavam um imenso arco em torno da orla, mas o olhar era irresistivelmente guiado de suas construções baixas, cinzentas e uniformes para o centro brilhante no meio da baía para o qual todas as avenidas apontavam: quase à frente, a ilha sagrada de Xambala, cujo formato fazia pensar num enorme olho que vigiava a cidade e todo o vasto império de Agarta. A íris era formada por círculos de arcos e torres esguias, templos, monastérios, palácios e monumentos que pareciam subir em procissão pelas encostas da ilha até a pupila central. No topo , a umas três léguas, se erguia a vasta cúpula em forma de botão de lótus do Templo do Fogo Sagrado, toda de mármore branco incrustado em ouro, resplandecendo como um eco do sol que nascia à mão da espada dos caminhantes.

Se haviam emoções que os jovens tautas eram incentivados a exprimir eram o orgulho patriótico e o fervor religioso. Vasu foi o primeiro a cair em lágrimas, mas os outros o seguiram. Um deles começou espontaneamente a cantar um hino a Mavrit, o eternamente jovem ancião dos dias e os outros, piedosamente, o acompanharam, braços abertos na direção da cúpula que era o centro do seu universo. Voltaram-se então para o leste e fizeram uma breve oração ao sol e sua mestra Hauasa – seria perigoso saudar Mavrit e esquecer sua ciumenta esposa e irmã –, antes de seguirem seu caminho.

 

Como toda cidade de Agarta, Manova não tinha muralhas, esperava-se que a coragem de seus guerreiros bastasse para protegê-la. Na entrada do perímetro urbano havia um arco simbólico e uma guarita onde se apresentarem em formação, com o braço erguido. O chefe da sentinela, um oficial veterano, saiu do posto para inspecioná-los simbolicamente e os dispensou, autorizando-os a entrar na cidade.

O grupo se dispersou, pois suas famílias moravam em diferentes bairros. Aquele ao qual Vasu se dirigiu pouco se distinguia dos demais. Era dividido em cinco setores, destinados às cinco castas – os sacerdotes sindhus no centro, os guerreiros tautas ao sul, os administradores pardhavas a leste, os trabalhadores arabayas ao norte e os artistas yavanas a oeste, em ordem decrescente de prestígio. Encaminhou-se ao setor de sua casta, onde as moradas eram espaçosas e arejadas, mas severas. Nenhuma decoração supérflua além das colunas de pórfiro vermelho e de pintura e relevos com cenas de batalhas ou símbolos religiosos.

Um quartel de luxo, com cocheira, refeitório, cozinha, banhos e salões comunitários. Apenas os dormitórios eram substituídos por apartamentos pessoais ou familiares. Vasu procurou o de seus pais, o de número doze no corredor do andar superior e bateu a aldrava de ferro fundido.

Uma hilota mugal baixinha, vestida com uma libré preta, cabelo puxado para atrás e atado com duas fitas num longo rabo de cavalo, abriu a dupla porta e o atendeu com uma profunda reverência , mantendo depois os olhos baixos e os braços caídos. Vasu a conhecia pelo apelido de Bakri, “cabrita”, desde quando ele era um bebê de colo e ela uma aia adolescente, mas isso não a dispensava do temeroso respeito devido por uma serva.

– Muito bom dia, jovem sikshu – usou o título devido a um aprendiz de guerreiro.

– Meus pais estão?

– O senhor gulmika – referia-se ao posto militar – saiu para inspecionar os preparativos para a festa da Primavera na praça do templo, a senhora padika está. Permita-me anunciá-lo.

– Está bem – estava habituado às formalidades da casa, que enrijeceram à medida que os filhos cresciam e o pai era promovido. Ainda mais agora que os dois irmãos mais velhos estavam longe de Manova, servindo o Manu e a Pátria em terras distantes.

Com outra reverência, a serva o deixou na sala de visitas perfumada com incenso, limpa e organizada com rigor, almofadas, mesas e jarras alinhadas como guerreiras à espera da inspeção dos comandantes. Voltou em alguns momentos, com outra vênia.

– A senhora padika receberá o jovem sikshu no escritório.

Ladali era uma loira alta e levemente grisalha, com sobrancelha, nariz e queixos marcantes, cabelo longo de oficial. Sentada em posição de lótus num tapete e recostada a uma almofada cilíndrica, fechou o livro que estivera lendo e o recebeu com um leve sorriso. Ele fez a saudação militar, de braço estendido:

– Pelotão, descansar! – riu ela – Não exagere, filho, sou sua superior, mas estamos a sós e ainda sou sua mãe. Venha cá, sente-se e me dê um abraço, faz um mês que não nos vemos…

Sentou-se na frente dela na mesma posição e começaram a falar de trivialidades, mas a mãe insistiu, em especial, em saber se no seu pelotão havia flertes com as garotas. Vasu ficou embaraçado.

– Sim, alguns falam disso e de coisas mais atrevidas…

– E você, querido, não teve vontade de fazer isso? – Ele corou.

Pensava na sikshi Madhavi, uma vizinha bonita que estava na academia feminina. Debaixo das cobertas do quartel, Vasu fantasiava que ele e ela eram designados para gerar filhos para a pátria e cumpriam alegremente o dever. Improvável, é claro. Os sindhus não consultavam os interessados e muitas vezes seus critérios misteriosos uniam completos desconhecidos, principalmente quando se tratava de linhagens tidas como promissoras.

– Sempre me ensinaram que devia esperar até os sacerdotes me unirem a uma esposa…

– Para ter filhos e uma família, sim, mas a vida não é só isso. Nem tudo que não é obrigatório é proibido, mesmo para um tauta, entende? Mesmo um bom guerreiro precisa de um pouco de prazer e alegria de vez em quando, até para não perder a vontade de viver e lutar pelo Manu e pela Pátria… Eu mesma já fui jovem e sei que as meninas também esperam por isso, é só chegar a elas com um pouco de jeito – encarou o rosto perplexo do filho, tocou-lhe a mão e continuou. – Talvez eu e seu pai devêssemos ter focado menos o rigor e a disciplina na sua educação, quando você não precisava tanto… quanto sua irmã, digamos… e o encorajado mais a apreciar a vida social, dar-lhe mais oportunidade de adquirir traquejo nessas coisas… Mas sempre é tempo e se tem receio de fazer feio com uma garota agarti, até uma hilota pode ensinar uma ou duas coisas sobre o trato com as mulheres…

Para alívio de Vasu, o inesperado discurso foi interrompido pela chegada de Ahalya da escola preparatória. A mãe os deixou a sós e ela e disparou um monte de perguntas ao irmão mais velho, do qual tinha o mesmo tom loiro dourado de cabelo, alguns dedos mais longo que o corte rente dos meninos, e os mesmos olhos de céu sereno de fim de tarde. Estava cada vez mais ansiosa por ouvir pormenores da vida já quase militar na academia, que logo teria de enfrentar. O treinamento dos rapazes não era inteiramente igual ao das moças, mas preferia ouvir as histórias do irmão que as da mãe, sobrecarregadas de conselhos e lições. Vasu estava disposto a ser franco, mas a chegada do pai interrompeu o desabafo.

Os dois se apressaram a se pôr de pé e receber o gulmika Parusha com a saudação devida. Vestido com o uniforme vermelho de oficial superior, barba e cabelo longos, capacete de chifres debaixo do braço, cobrou um relatório sobre o último mês, Vasu primeiro. Ele respondeu da forma concisa e objetiva exigida pelo pai, mas sem deixar de observar que seu desempenho fora o melhor do pelotão. Parusha pareceu satisfeito:

– Precisa continuar assim, filho, se quer chegar a gulmika com a minha idade. Espero que consiga ser ainda melhor no próximo ano. E você, kanya Ahalya?

O desempenho dela era mediano e isso aborrecia imensamente o senhor gulmika, para o qual os filhos desperdiçariam a semente que lhes dera caso se mostrassem menos do que excepcionais. Como mínimo, queria que a filha fosse aceita no corpo das valquírias, a tropa feminina de elite do Império Agarti. Ela o confessou com voz firme, porém, o que valia algum crédito. Talvez por isso, o pai foi relativamente condescendente:

– Eu deveria ser mais severo, mas esta noite começa a Haulaka e quem entra nela com castigos e aborrecimentos está fadado a repeti-los por todo o ano. Suspendo a punição, kanya Ahalya, mas ela virá em dobro na próxima oportunidade, se não tiver notícias melhores a dar. Não é isso que se espera de uma valquíria nascida de linhagens de oficiais superiores. Dispensados!

Ela esperou ter o pai a uma distância segura para dar um bufo ostensivo de impaciência, que provocou em Vasu um riso nervoso. A irmãzinha despertava nele impulsos de rebeldia que tentava, a todo custo, domesticar.

Trocaram os uniformes, que jamais deveriam ser desonrados por comportamento desregrado, pelos trajes civis festivos de sua casta, túnica vermelha de algodão sobre bombachas de tartã e correram para a festa que começava na praça principal do bairro. No severo calendário cerimonial dos agartis, a Haulaka, que comemorava o início da primavera era o momento de maior descontração e o único no qual as castas se misturavam com relativa liberdade – exceto os sindhus, que se recolhiam a seus próprios ritos. Era o caos ao fim do qual a ordem cósmica devia renascer renovada por mais um ano, durante o qual certos excessos eram tolerados.

Kjandra, a lua branca, estava cheia e acabava de nascer e o crescente de Indu, a lua vermelha, ia alto. A praça estava decorada com lanternas de papel coloridas, como se fazia nas noites de festa. Jovens yavanas em esvoaçantes túnicas curtas verde-água, que deixavam ver pernas bonitas, lhes penduraram colares de flores ao pescoço. Músicos da mesma casta tocavam e cantavam no pavilhão erguido no centro da praça, decorado de fitas de seda multicoloridas. Senhores e senhoras com as túnicas e calças cor de açafrão dos arabayas abasteciam barracas de comidas, bebidas, brinquedos e flores enquanto pessoas de todas as castas circulavam, dançavam em torno das quatro fogueiras da praça ou conversavam ao redor. Crianças jogavam água perfumada e grãos coloridos de arroz e outros cereais nos passantes, brincadeira que as divertia e que se acreditava trazer boa sorte e abundância aos seus alvos.

Ahalya despediu-se do irmão com um beijo no rosto e se juntou a um grupo de pré-adolescentes da mesma idade, empenhados em uma brincadeira de centopeia que, como Vasu bem se lembrava, era uma oportunidade de meninos e meninas de diferentes castas trocarem, de brincadeira, toques e abraços proibidos sem receio de castigos.

A conversa com a mãe reavivara em Vasu uma vaga expectativa de emoções mais fortes, tais como alguns colegas mais velhos se vangloriavam de ter experimentado no ano anterior. Quando viu Madhavi desacompanhada animou-se. Escolheu uma tulipa cor de fogo e uma castanha cristalizada e, esperançoso, ofereceu-as a ela. Alta, loira, ágil e atlética como devia ser uma tauta, rosto jovial e olhos vivazes que faziam pensar num céu azul cortado por relâmpagos. Ela sorriu, aceitou o doce, prendeu a flor no cabelo curto e lhe deu o braço para acompanhá-lo numa dança folclórica, como se esperava de uma moça bem educada. Mas foi só: o costume não lhe exigia que continuasse a segui-lo depois de terminada uma música. Fugiu de seu beijo e de suas mãos ansiosas, se despediu com uma reverência.

Ele tentou segui-la em busca de uma segunda chance e a viu tomar a iniciativa de convidar um rapaz recém-chegado, um que ele conhecia como dos mais incompetentes do pelotão, filho de pais sem brilho, mas com muita sorte com as mulheres e em particular Madhavi, com a qual já o vira no feriado anterior. Sentiu-se humilhado, mortificado. Que diabos podia ter o babaca do Nanda que ele não tinha? Sequer era especialmente bonito, ao menos na opinião de Vasu!

Desacorçoado, ele caminhou a esmo pela praça, observando o movimento e foi abordado por uma moça sorridente de longos cabelos cor de mel e um longo vestido azul de pardhava, que lhe ofereceu algumas cerejas confeitadas. Além de ela ser de uma casta inferior, era magra demais para seu gosto, mas depois da esnobada de Madhavi, não se sentia muito exigente. Contente, aceitou, as pôs na boca e só então a reconheceu como Balamani, filha do casal responsável pelo armazém de secos e molhados do bairro. Ela pareceu feliz quando ele lhe deu o braço e sentiu seu doce perfume floral. De repente, ele se ruborizou ao se lembrar que iam vê-lo dançar com uma pardhava. Paciência, não podia mais voltar atrás e afinal, era Haulaka, nem o pai faria objeções. No máximo, aturaria algumas piadinhas dos camaradas, mais tarde.

As danças agartis não eram propícias ao contato íntimo, mas eram animadas e ressaltavam a graça e agilidade dos parceiros. Balamani era boa bailarina, a luz da fogueira lhe dava um toque de mistério e nenhum dos dois teve pressa de trocar de par. Continuaram as farândolas até ela dizer que tinha sede. Foram a uma barraca e uma arabaya lhes serviu canecas de kumis, uma bebida espumosa e refrescante, à base de leite de égua fermentado.

– Cansada? – Perguntou ele, depois de tomar o primeiro gole.

– Não, imagine! Só preciso me refrescar e descansar um momentinho – bebericou devagar da caneca grande.

– Você dança bem…

– Você também – deu mais um pequeno sorvo. – Puxa, fazia tempo que não o via, você está forte… – a segunda observação soava mais sincera que a primeira.

– É, os exercícios estão cada vez mais puxados – disse ele, exibindo, orgulhoso, o muque. – Outro dia marchamos vinte léguas num só dia.

– Para nós, são os exercícios da cabeça. As contas e os registros. Os rapazes não têm tempo para mais e não gostam muito de esporte, ficam meio magrelos…

Ela está a fim de mim, pensou Vasu, enquanto emborcava o kumis.

– Quer dar uma volta por aí e conversar num lugar mais tranquilo, ou voltar à dança?

– Vamos passear um pouco, sim, me conte das suas aventuras…

Caminharam na direção do mar, enquanto ele contava casos da academia. Quando já estavam fora do alcance das luzes da praça, ele lhe passou o braço pelos ombros e ela não o recusou. Ao chegarem à avenida beira-mar, os braços iam pela cintura. Havia outros casais por ali, cada qual com seus próprios assuntos. Encorajado, ele a levou para junto de uma árvore, passou o outro braço pela cintura e a puxou para um beijo. Ela relutou um pouco, mas o abraçou e acabou por corresponder, sem o deixar se aprofundar. A moça parecia admirar seus músculos e ele abriu a túnica, levando-lhe a mão aos seus peitorais, mas ela a afastou.

Impaciente, Vasu avançou e a abraçou com mais força, apertando-a junto a seu corpo e fazendo-a sentir sua excitação. Acariciou-lhe as costas através do vestido sedoso, até as nádegas e ela suspirou e encostou o rosto no seu peito. Então, as mãos trêmulas e hesitantes de Vasu tentaram lhe tocar as partes mais íntimas e fazer carícias como seus camaradas tinham se gabado de trocar com as garotas e quebrou o encanto:

– Não! – disse ela, desvencilhando-se. – Chega, vou voltar!

– Desculpe, se você não quer, não faço mais… vamos só nos abraçar.

– Não. Olhe, sou eu quem pede desculpas. Me deixei levar pela fantasia de ser uma tauta e perdi a cabeça, não devia ter vindo aqui. Você foi muito bom para mim, mas não quero mais, sério. Por favor, me deixe ir, até mais ver.

Chegou a passar pela cabeça do frustrado Vasu a ideia de agarrá-la à força, mas se conteve, envergonhado. Até o Haulaka tinha limites. Deixou-a voltar apressada, quase correndo.

Decepcionado, Vasu caminhou pelo calçadão, sem ânimo de voltar à festa e uma mulher o alcançou e lhe pegou a mão. Usava o vestido curto de uma yavana, como também sugeriam os cabelos escuros e a estatura baixa para uma adulta e usava um perfume forte e provocante. Não a conhecia, devia ser de outro bairro.

– Vi sua garota ir embora, sikshu. Mas eu topo uma foda de verdade, vamos?

– Ei… você é uma prostituta? – Era ousada demais para ser outra coisa.

– Sim, mas hoje é Haulaka e não quero paga, só o prazer de pegar um homem novo e bonito. Só cobro um beijo atlante… vamos ali, onde ninguém nos vê –apontou com um movimento de cabeça para uma ponta rochosa irregular que dividia a praia, conhecida como O Arpão.

Ele recuou, pálido de nojo. Sabia do que ela falava de ouvir piadas sujas, mas lhe parecia tão repugnante que não imaginara que se fizesse de verdade. Não em Agarta, pelo menos. Ela riu.

– Pensei que um tauta tão forte seria mais corajoso… brincadeira, você é só um garotão, eu entendo. Olhe, se quiser, lá no Luar Vermelho, junto do porto, eu e minhas colegas aceitamos cinco dharanans em vez do beijo atlante! Até… – foi-se rebolando, como para lhe jogar na cara o que estava perdendo.

Humilhado por uma tauta, uma pardhava e uma yavana na mesma noite, Vasu desistiu de aventuras e caminhou, cabisbaixo, para casa. A criada custou um pouco para abrir a porta e bateu de novo a aldrava com mais força, impaciente. Ouviu então abrir a tranca.

– Boa noite, esta serva pede perdão pela demora.– depois de fechar a porta, Bakri curvou-se ainda mais que de costume, praticamente em ângulo reto, com uma lanterna de vela nas mãos. – O jovem sikshu quer repousar?

– A Alaya e meus pais voltaram?

– Não. Os amos não eram esperados antes do amanhecer e a preguiçosa servidora descansava na enxerga da copa. Por isso ela tardou em atender e implora o perdão – A postura que mantinha podia ser inocente, mas ressaltava sua submissão e seus contornos. Pela pressa de atender, vestira apenas a libré externa, deixando percebê-los melhor.

De repente, Vasu deu-se conta de que apesar de ser uma hilota de olhos rasgados, cabelo grosso e pele amarelada, ela era uma mulher jovem e ele era seu senhor. Alguns de seus camaradas contavam ter feito de tudo com hilotas, servas de suas casas ou camponesas das aldeias, forçadas a atendê-los. Não era para se gabar ou mesmo comentar em voz alta, mas não era ilegal se não fosse com servas de estranhos. E sua própria mãe insinuara…

– Bakri… – calou-se, incerto sobre se podia haver uma maneira apropriada de pedir algo tão impróprio. Ou deveria apenas mandar? Ela permanecia à espera, pronta para acatar qualquer ordem ou castigo, com ou sem razão.

Os sentimentos dele eram ambivalentes. Poderia impunemente descontar na serva as afrontas reais e imaginárias que recebera de outras mulheres naquela noite. Mas também fora sua babá, protetora e companheira de brincadeiras da primeira infância, antes de ele tomar consciência do abismo social que os separava. Seu lado menos mesquinho prevaleceu.

– Bakri… – repetiu, tocando-lhe o rosto, pela primeira vez desde a infância– sinto-me triste e só, quero sua companhia esta noite. Se vier comigo no meu quarto, serei gentil.

Ela estremeceu. Vasu ergueu-lhe o queixo e viu um rosto corado e surpreso. Um rosto que ele se acostumara a ver como de raça inferior, mas não desagradável. Beijou-lhe os lábios mudos e trêmulos. Só então lhe ocorreu que ela talvez não pudesse.

– Por acaso, minha mãe a proibiu de…?

– Não. – Balbuciou com voz sumida. – A senhora padika preveniu a serva que o jovem sikshu poderia manifestar esse desejo e a serva deveria atendê-lo e ensiná-lo. A serva está pronta, mas implora humildemente que o jovem sikshu não a emprenhe – Fez um movimento para se prostrar no chão, mas Vasu a segurou pelo braço.

– Não é preciso, farei como quer, venha comigo. – De qualquer modo, pensou ele, seria assim com as outras. Engravidar uma agarti sem permissão dos sacerdotes era grave. E ainda que isso lhe ocorresse em segundo lugar, não queria que ela sofresse. Era absolutamente proibido que mestiços vivessem: se ela engravidasse, teria de abortar – e se por qualquer razão isso não acontecesse, o bebê seria morto ao nascer.

– É preciso avisar Gadhi para ficar atenta – referiu-se à outra hilota da casa –, o combinado era esta serva cuidar da porta nesta noite.

– Está bem, espero no meu quarto.

Sentou-se na cama e em momentos ela trouxe a lâmpada, uma toalha e uma jarrinha de gui para massagens, manteiga clarificada aromatizada com zimbro, alecrim e lavanda, que pousou na mesinha de cabeceira.

– O jovem sikshu quer uma massagem? – Ela fizera isso muitas vezes, principalmente quando ele era menor e voltava cansado ou machucado da escola e do treino.

– Boa ideia! – Aprovou. – Mas quero ver já o seu corpo. Ela se aproximou e ele desfez o laço e lhe abriu a libré à luz suave da lâmpada de vela. Como imaginou, não havia mais nada sobre o corpo franzino de seios pequenos, cintura pouco marcada, pernas e braços curtos. Formas pouco atraentes pelos padrões de beleza agarti, mas ela ainda era jovem, tinha uma pele suave e era bem tratada e alimentada para uma mugal.

Ela continuava trêmula e muito corada, mas não parecia relutante. Sem esperar ordens, ela acabou de se despir, soltou o cabelo e o ajudou a tirar as botas e despir-se, como se ele fosse uma criança. Ele se estendeu de bruços na cama. As mãos eram pequenas e carinhosas e o gui suavizava as asperezas deixadas pelas tarefas domésticas. Recordou-se de como ela o cuidava na infância com sentimentos ternos e se virou, visivelmente excitado. Ela continuou a tarefa no seu peito e barriga, como se não notasse, até ele mandá-la parar.

– Venha cá, deite-se a meu lado. Me mostre como fazer uma mulher feliz. – Ela entregou a boca ao beijo e lhe levou as mãos, no ritmo que lhe agradava, pelos seios, flancos, coxas e bunda e depois à intimidade da vulva. Ele se deixou conduzir.

– O jovem sikshu pode tocar bem aqui… de leve, depois pode ser mais rápido, assim… – Sentiu que ela se abria como uma flor úmida e de cheiro forte. Cheirou os dedos, curioso, e continuou, alternando entre movimentos suaves e fortes, experimentando beijos, carícias e beliscões leves em diferentes partes do corpo com a outra mão. Ela deixou-o explorar-lhe o corpo, vez por outra o encaminhando ou sussurrando uma sugestão. Ele achou divertido descobrir como fazê-la suspirar, contorcer-se e gemer baixinho, até senti-la estremecer.

– Isso foi gozo? – Abraçou-a, enquanto lhe cobria o púbis com a outra mão, sentindo-se dono.

– Sim… – ofegava, sorridente, de olhos fechados.

– Você já tinha feito isso antes?

– Não. Quero dizer, não com um homem. Sozinha.

– Gostou de fazer comigo?

– Sim, o jovem sikshu foi mesmo gentil, como disse que seria. Agora a serva quer retribuir.

Beijou-o no peito, mamilos e barriga, ajoelhou-se entre as pernas dele, beijou-as também, admirou com curiosidade o falo ereto, tocou-o e o acarinhou contra os seios pequenos e macios, brilhantes de gui. Testou suas reações de alto a baixo, como quem tenta descobrir exatamente como se faz com um brinquedo novo. Aquilo o deixou arrepiado.

– Bakri, me olhe nos olhos – pediu-lhe.

Ela parou e o atendeu, com um sorriso espantado.

– Me chame de Vasu, não de jovem sikshu. Você gosta de mim?

– Sim! Sim, Vasu querido. – Os olhos dela brilharam.

–Qual é o seu nome mugal, pequena?

– Há tantos anos não o ouço… é Wen Zhothaey, Vasu querido.

– Van Yutai? Que esquisito…

– Vasu querido chama esta mulher do jeito que quiser, mas ela gosta que a chame de Bakri.

– Bakri querida, agora faça assim – encaminhou-lhe as mãos e mostrou como lhe dar mais prazer, com ela tinha feito com ele –, que eu quero me acabar com você!

Ela o atendeu com entusiasmo e riu ao senti-lo vibrar cada vez mais forte, gemer e ejacular. Limpou-o carinhosamente com a toalha e deitou-se de novo a seu lado, à espera de que ele descesse de suas nuvens disposto a brincar mais um pouco.

 

Vasu acordou quando o sol já ia alto no céu, coisa possível só naqueles feriados. Acordou só, é claro. Zhothaey voltou a seu catre assim que ele adormeceu, não se atreveria a ser apanhada dormindo na cama de um amo. O pai saíra mais cedo, a irmã ainda dormia. Foi à copa tomar um desjejum tardio e encontrou a mãe em uniforme de valquíria. Lembrou-se de que ela disse que prestaria serviço a partir do meio-dia. Mesmo num dia de festa como aquele, partes da guarda da capital permaneciam de prontidão em rodízio.

A hilota os serviu com a presteza, os olhos baixos e o jeito tímido de sempre, como se nada tivesse acontecido. Só a atitude dele, ao olhar mais insistentemente para a serva e esbarrar a mão na dela como por acaso, poderia ter alertado a mãe de que houvera algo.

– Filho – disse, largando o copo de refresco quando a serva saiu de sua presença – é bom aprender um pouco sobre as mulheres em casa para não se embaraçar ao lidar com estranhas, mas você é um tauta, é nosso filho e ela é nossa serva, não uma noiva. Faça-a servi-lo e ensiná-lo com discrição, mas respeite a nós e a você mesmo, não a mime e não se rebaixe.

Ele fitou, surpreso, a expressão séria da mãe, que acabou a beber do copo de iogurte com água de flor de laranjeiras, pegou o capacete de asas de corvo e saiu sem dizer mais nada. Obviamente, seria inútil fingir que não sabia do que ela estava falando.

Na noite, despreocupado, Vasu foi mais relaxado à continuação da festa e se divertiu conversando e dançando, sem ansiedade, com garotas, inclusive Madhavi. Teve até a impressão de que desta vez ela parecia mais interessada em sua companhia, mas ele tinha outros planos. Sumiu das vistas dela, encheu a algibeira de doces e voltou cedo.

Desta vez, Zhothaey abriu a porta ao primeiro golpe, como se estivesse de prontidão atrás e o saudou não com uma reverência, mas com um beijo apaixonado. Ele desobedeceu alegremente à mãe, fechou a porta e a levantou do chão. Levou-a para o quarto com a lâmpada e se despiram. Ele abriu a algibeira e lhe ofereceu as guloseimas. Curiosa, ela mordiscou um doce de mel, figos e pistaches, se maravilhou e bateu palmas feito criança.

– Que delícia! Nunca provei coisa tão gostosa!

As servas raramente tinham mais que insossos cereais e legumes cozidos para comer, mesmo se preparavam a comida dos amos. Mas ela não foi avara com seu tesouro. Entregou a metade da iguaria a Vasu com os lábios para que a tomasse com um beijo e lhe lambesse o melado. Depois pôs outro sobre o umbigo. Ele o pescou com a boca e retribuiu a gentileza. Alternaram as ofertas de maneira cada vez mais atrevida. Ao dividir o último, Vasu se deu conta de estar à beira de um beijo atlante que, naquele estado de excitação mútua, parecia menos repugnante do que atraente, quando menos por transgredir os limites postos pela mãe. Esqueceu-se de ser tauta e entregou-se ao deleite de fazer a mugal se contorcer e balbuciar bobagens.

Ele esperou ela descansar um pouco antes de lhe oferecer em troca o falo, que ela tratou com um manjar a ser degustado pouco a pouco. Mirando-o nos olhos.

 

Na terceira noite, mal Vasu chegou à festa, Madhavi o abordou e ele, encantado e envaidecido, lhe deu mais atenção. Envolveram-se e aproveitaram a primeira oportunidade de se afastar do burburinho sem dar na vista e ele perguntou, curioso, enquanto conversavam sobre novidades sobre eles e os amigos, andando de mãos dadas por ruas mais tranquilas:

– Você não andava com o Nanda? – perguntou ele de repente.

– Nós brigamos, anteontem – baixou a cabeça, aborrecida. – Eu queria estar com ele e ele queria deixar para depois, aproveitar a festa até tarde. Como se eu fosse uma sobremesa!

– Que bom! Quero dizer, se foi isso que me deu minha chance – apressou-se a emendar.

– Vasu! – voltou-se para ele, surpresa. Ele riu e ela riu junto. – Tá certo, eu devia ter-lhe dado mais atenção antes, mas às vezes é preciso uma ducha de água fria para acordar. Eu achava você meio rígido, chato… mas ontem vi você diferente, me lembrei de quando brincávamos juntos e achei que poderíamos voltar a nos falar mais, sei lá. Você gosta um pouco de mim, não é? – Aproximou-se dele, que lhe sentiu o leve perfume cítrico dos cabelos.

– Um pouco, não, muito.– Enlaçou-a pela cintura e a beijou. Sentiu que o coração dela também pulsava forte. – Madhavi, quer ir comigo à praia?

– Já? – Ela pareceu surpresa, mas não o afastou. – Quero dizer, acabamos de nos reencontrar…

– É que nossa licença é tão curta! A festa de Valnas é só daqui a um mês e não teremos muitas oportunidades para ficarmos a sós. Mas se você tem medo, está bem…

– Medo, eu?! – Ela bufou pelo nariz e sorriu. – Uma valquíria não tem medo de nada, muito menos de homem! Se você quer tanto, vamos, vou lhe mostrar se tenho medo! – Enlaçou-o por sua vez e lhe apertou o traseiro enquanto mordia o lábio.

Vasu riu. Acertara em cheio. Continuaram se provocando até chegar à avenida da praia.Não se viam outros casais por ali, era cedo e estava mais escuro que na outra noite, pois Kjandra começava a fase minguante e ainda não surgira. Ele a abraçou, ela procurou e aceitou um beijo profundo sem hesitar e ele sentiu a cabeça rodar. Meteram as mãos sob as túnicas e começaram a se acariciar de pé. Ele tocou um seio empinado, pulsante e quente e ela respondeu apertando-o mais contra seu corpo.

– Vamos tirar a roupa? – pediu ele.

– Hem? – Madhavi o olhou, preocupada. –Não é meio demais? Nunca fiz isso…

– Você disse que não tinha medo…

– Não é medo, é pudor! – protestou – Ainda mais ao ar livre, na frente de toda a cidade e de Xambala? – Olhou com respeito para o perfil da ilha sagrada no horizonte e fez um gesto meio religioso, meio supersticioso, de beijar a própria mão em saudação.

– Entre aquelas pedras. Mesmo que passe alguém, não perceberá nada.

Ela hesitou, olhou para a ponta do Arpão, olhou para ele e se decidiu.

– Se alguém nos pegar, eu mato. E isso inclui você!

Acharam um espaço de areia úmida e macia entre rochas altas. Despiram-se e ele juntou as roupas em um canto seco e seguro, debaixo de uma pedra.

– Não se preocupe, elas não vão criar vida e fugir – brincou Vasu, porque ela ainda parecia ressabiada.

– Não importa, eu sei que corro mais do que elas – riu ela, de mão à cintura.

Vasu ia abraçá-la, mas parou embasbacado ao vê-la nua e sorridente. A luz suave do crescente vermelho fazia dela uma aparição divina de formas harmoniosas, seios pontudos, coxas fortes, pelos púbicos suaves e loiros. Divertida com a expressão de seu rosto e demais sinais de interesse, ela assumiu a postura de saudação militar, de braço estendido.

– Respondo a seu gesto, apesar de você me saudar com um meio não regulamentar e que não consta do meu equipamento – Troçou ela. – Passei na inspeção, senhor instrutor?

– Com louvor. Descansar, querida sikshi, não precisa ficar de braço erguido, até porque não vou baixar minha saudação sem sua ajuda…

Ela riu de novo e ele a abraçou. Estava arrepiada, embora não fizesse frio.

– Você é muito legal, eu devia ter descoberto isso há mais tempo.

– Você ainda não viu nada. Vem cá. – Sentou-se sobre uma pedra, acomodou-a sobre suas coxas e afastou-lhe a mão apressada – Ainda não, agora só aproveite. – Aplicou as lições de Zhothaey, com muito bons resultados. O gozo de Madhavi foi mais agitado e violento, pois era mais vigorosa e menos contida. Largou-se, tonta e derretida, nos seus braços.

– Você me dá vontade de fazer uma loucura… – Sussurrou ela, quando abriu os olhos.

– É bom saber! Mãos à obra!

– Só mãos? Não, eu todinha! – Deitou-se no chão. – Venha, amor, quero você em cima de mim. Mas cuidado, tá? Goze fora, não vá nos meter numa enrascada…

Ela o incentivou a passear o falo por seu corpo, para a diversão de ambos. Demoraram-no umbigo, comprimiram-no entre os seios fartos, atreveram-se até a encostá-lo no rosto para um beijo rápido. Depois, desceu de novo, acomodou-se entre as coxas e ela o abraçou com pernas e braços, corpo e alma. Resistiu à tentação de penetrar a vulva úmida e macia, mas refestelou-se. Ficaram longos momentos lambuzados e colados antes de ela o convidar a um banho de mar. Brincaram um pouco nas ondas e voltaram de mãos dadas.

– Quer mais? –Perguntou ele.

– Hã… – Ela olhou sobre as pedras – Não. Tem gente na praia. Vamos nos vestir.

Havia só dois casais namorando que não ligariam a mínima, mas ele não insistiu.

– Quer voltar à festa?

– Não, vou para casa. – Ele a olhou, desapontado e ela o beijou, enquanto se vestia. – Não me entenda mal, mas estou muito mexida. Não dá para voltar, brincar e fazer como se não tivesse acontecido nada, quero me recolher um pouco e pensar.

Acompanhou-a até o conjunto onde viviam os pais dela e se despediram com um beijo.

Havia outra mulher à sua espera, lembrou Vasu, com uma ponta de remorso. Passou apressado pela festa para conseguir um pedaço de bolo para lhe levar. Gostaria de dar algo diferente, mas comida tinha a vantagem de desaparecer em seguida. Se a presenteasse com qualquer outro tipo de mimo, a mãe descobriria e ficaria furiosa.

Ela voltou a abrir rapidamente a porta, mas pareceu menos entusiasmada desta vez. Ainda assim, sorriu delicadamente e correspondeu quando ele a beijou com ternura. Mesmo depois de ter tido Madhavi, continuava seduzido pela simplicidade de Zhothaey. Mulheres tão diferentes e ainda assim tão encantadoras, cada uma à sua maneira…

– Me desculpe, sei que demorei, é que… – hesitou ele, sem saber como se explicar.

– O jovem sikshu compartilhou leite e mel com uma moça na praia.

– Como você soube? – Surpreendeu-se. Ela disfarçou um sorriso com a mão.

– Cheiro de praia, jeito de chegar, conhecimento desde pequeno do jovem sikshu, que nunca aprendeu a mentir. A serva só não sabe o nome da sortuda, mas não precisa saber. Está contente por tê-lo ensinado a agradar sua companhia.

– Estive com Madhavi. Esteve aqui na festa da promoção do pai, não sei se você lembra dela.

– Ahá, a jovem sikshi, filha do senamu Yayati. Todos gostaram dela, é muito linda e simpática!

– Mas não esqueci você. Olhe, eu trouxe isto – entregou o embrulho de folha de lótus.

– A serva agradece muito a bondade do amo e deseja boa noite – fez uma reverência.

– Não! Por favor, eu a quero. E não me chame mais de sikshu e nem se chame de serva quando estamos a sós. Neste momento, você é minha amiga e meu amor…

Ela o fitou de olhinhos arregalados.

– Quer compartilhar leite e mel com esta mulher velha e feia depois de Madhavi? Não é troça?

– Você é linda, não é velha e eu a quero muito. Vem comigo, por favor?

Ela tremeu, porque ele era um rapaz que não sabia mentir.

– Isso pode começar a ficar perigoso para Vasu… e não só para ele.

– Tomarei cuidado.

Na cama, ela fez questão de partir o pedaço de bolo e pôr metade na boca de Vasu.

– Não tenho fome – protestou ele. – Trouxe só para você.

– As mugais dizem: “keu bhyn kong, ed bhyn whayn, aoy zheg paong”, quer dizer, “nove porções de partilha e uma porção de ilusão é a receita do amor”. Vasu quer repassá-la, não é?

Ela lhe perguntou pela sua noite como uma professora pela lição de casa. Ele explicou.

– Madhavi deve ter gostado demais de Vasu  – concluiu ela – e tautas, homens e mulheres, conciliam mal os sentimentos com o dever e por isso às vezes os rejeitam.

– Como assim?

– Os tautas jovens têm que servir onde lhes mandam e casar com quem os sacerdotes mandam como todos os agartis, não é? Se Madhavi sente que queria estar sempre com Vasu, mas não pode fazer nada a respeito, pode querer se afastar dele para não sofrer.

– Então eu devia ter sido menos caloroso? – Disse ele, arrasado. Não tinha pensado em nada disso, só no aqui e agora de suas paixões.

– Se Vasu queria um caso ligeiro e sem consequências, sim. Mas é homem de mergulhar nos abismos do amor sem pensar se o futuro é raso. Esta tola entende, porque também sente desse jeito. Ser assim custa muito sofrimento… Como será Madhavi? Esta mulher não a conhece bem, não sabe dizer. Amanhã, pode ser que Vasu não a veja, como pode ser que fique com ela até o sol nascer.– Ela suspirou. – Se Madhavi não o quiser, tente outra moça, não será difícil para um rapaz bonito e atencioso, agora que sabe do que é capaz. Ou se divirta de outra maneira, mas volte só de manhã. Esta noite é a última lição, Vasu.

– Por quê, Bakri? –Estava muito desapontado.

– Porque – respondeu, triste e séria – se com Madhavi a esperança de um grande amor é pouca, com Bakri é nenhuma. Se continuar, a senhora padika decidirá que a hilota é má influência e a expulsará de volta para a aldeia de onde a trouxe quando menina, onde ela não viverá muito, se conseguir chegar lá, pois não será bem aceita e não saberá mais ser camponesa… –Soluçou e as lágrimas lhe escorreram pelo rosto, sem controle.

– Bakri, me perdoe! – Abraçou-a, com força – Não quis seu mal, de jeito nenhum!

– A chorona sabe – disse ela, enxugando o rosto. – Mas se deixar esta história acabar hoje, não terá feito mal nenhum. Terá dado a uma pobre serva momentos de alegria e ilusão, que serão lembrados com muitas saudades. Recordações como essas são mais do que a maioria das mulheres de minha raça terá para se consolar quando sua vida triste estiver no fim.

Ele sentiu um nó na garganta e também chorou, pela primeira vez em anos. Comovida, ela o consolou, enxugando suas lágrimas com beijos. A excitação aumentou, começaram a se acariciar mais intensamente e ela sussurrou:

– Ba-Bakri quer se despedir como mulher, co-com um presente que a moça não pode dar…

– Como assim, Bakri?

– Convidar Vasu a entrar bem fundo, como faz um marido com a mulher. Como a senhora padika mandou a serva ensinar tudo que pudesse…

– Mas você não tinha tanto medo de emprenhar? Não quero que sofra!

– Eu falei dessa aflição com Gadhi, que ouviu falar de outra hilota que uma colega chamada Hikka sabia um truque. É uma velha hilota do Estado que sabe ler e escrever e já serviu no bordel Lua Vermelha, onde preenchia livros. Agora trabalha no hospital da rua de cima e hoje, quando a senhora padika me mandou trazer pão, aproveitei para passar lá e lhe perguntar. Ela me contou como as prostitutas fazem para não emprenhar. É segredo, porque os sindhus não querem que a prática se espalhe sem seu controle. Uma sacerdotisa faz as contas a partir das regras de cada uma e diz quem deve trabalhar na cama e quem no palco. É complicado, mas Hikka descobriu como se faz. Fez o favor de calcular e hoje esta mulher pode se dar.

Ainda assim, Vasu se conteve e procurou prolongar ao máximo a despedida. Ao ouvir a primeira cotovia cantar, Bakri alertou:

– Vasu, o senhor gulmika chega logo antes do sol nascer…

– Está pronta?

– Faz tempo! Aqui… assim, assim. Aí, é bom. Deve meter bem fundo, bem forte, sem dó… – Ai! – Ela estremeceu, mas o apertou mais forte.

– Dói? – Parou um momento.

– Não, está bom, isso, assim, ai, ah, uh! – Ela gritou com vontade, como nunca fizera antes e lhe fincou as unhas nas costas. Vasu, excitado respondeu com mais vigor. Ele chegou ao clímax uivando como um lobo e largou-se, meio desmaiado, sobre ela.

Passou-se o tempo mal definido de um sonho confuso com muitas mulheres nuas antes que voltasse inteiramente a si e rolasse para o lado. Olhou para o rosto de Bakri, mais bonito do que ele jamais tinha notado.

– Você está mesmo bem, não a machuquei?

– Doeu um pouquinho porque a mulher é pequena, nunca fez antes e o homem é grande. Mas foi bom ter recebido o Vasu querido com a ilusão de ser sua mulher, será uma lembrança boa para guardar até a morte. Mas agora é preciso a separação, senhor gulmika chega a qualquer momento. – Beijou-o uma última vez e vestiu-se, com pressa. Ao sair do quarto parou como se esquecesse de algo e completou – Boa sorte com Madhavi, que ela queira o amor de Vasu e que os dois saibam encontrar os meios de cultivá-lo, apesar de tudo.

– Você quer mesmo que eu seja feliz com Madhavi e não a procure mais? – Insistiu ele.

– Nove porções de partilha e uma porção de ilusão é a receita do amor. Tem mais de um sentido, jovem sikshu.

 



Categorias mitopoese

Deixe um Comentário

Entre em Contato

Deseja falar com o autor?

Basta clicar no e-mail abaixo!

antonioluizcosta@uol.com.br

aoLimiar

Divulgue você também sua obra no aoLimiar.

O aoLimiar - Rede Social de Editoras, Escritores e Leitores de Literatura Fantástica.

Hospedagem aoLimiar | Projeto dotWeb