Um dia de trabalho duro

Publicação: 15 de maio de 2010

Ralfu Vayó Palmi jazia nua e inconsciente sobre a maca empapada de sangue. Pouco a pouco, a hemorragia reduzira sua saudável cor de bronze a um amarelo sujo. O irmão e o marido fincavam pé em acompanhá-la até o fim. Os outros parentes haviam sido delicadamente postos para fora do quarto. Aguardavam o desfecho, angustiados, em outra parte da espaçosa Casa Vayó.

Kopinani, a idosa xamã tlavatli de Raltlor, não perdia uma paciente há muitos anos, mas já não esperava ver a jovem senzar sobreviver ao primeiro parto.

Esgotados todos os recursos, criava coragem para dar a notícia aos parentes, mas Tiakat, a aprendiz, continuava a tentar conter a hemorragia à força de passes e cânticos. Gotas de suor brilhando por todo o corpo atestavam o esforço; o cabelo amarfanhado, a duração da longa batalha.

A velha parteira orgulhava-se da discípula e a amava mais que às cinco filhas que tivera, para não falar de netas, bisnetas, trinetas, tataranetas e demais descendentes que chegara a conhecer. A firmeza e a dedicação da moça a comoveram. Mais de uma vez, a exaustão obrigara a mestra a deitar-se para uma sesta, enquanto a aprendiz se recusava a afastar-se da paciente por um momento sequer.

Durante a manhã, um sismo sacudira a casa e fizera alguns parentes gritarem e correrem à rua e Tiakat nem piscou. Se a paciente não podia sair, ela ficaria a seu lado. Não cedia ao cansaço, ao menos a olhos leigos. Olheiras, se as tinha, mal seriam visíveis naquele retinto rosto tlavatli. O corpo delgado e flexível aparentava a energia agitada de sempre, em contraste com a mestra de gestos lentos, peitos caídos e pele enrugada.

A uma percepção mágica, porém, sua aura incomum mostrava-se cada vez mais perturbada. O furacão de fogo invisível relampejava e bruxuleava de maneira estranha. A mestra sondou-lhe a mente e a encontrou perigosamente tensa, à beira de um colapso.

Infelizmente, chegara a hora de um basta.

*

Kopinani a chamou por telepatia: <Tiakat-ar, querida! Não adianta, só vai prolongar a agonia. É o momento de pararmos e lhes dizer a verdade.> <De jeito nenhum, titia! Me deixe tentar aquela ideia que te contei…> <Não, meu amor. É perigoso.> <Mas se não tentarmos, é morte certa, a aura dela está sumindo! Palmi é minha amiga e a vida da criança também conta!> <Não falo do perigo para a moça, mas do perigo para ti, para nós. Nunca se viu alguém fazer isso. Se não der certo, dirão que nós a matamos>.

Cansada, Tiakat perdeu a paciência. <Tá, Kopinani-ar. A responsabilidade vai ser toda minha. Saia e me deixe tentar, por favor>. <Não, não posso permitir>. <Ah, não?>

Com uma inesperada rapidez, a aprendiz agarrou a mestra franzina, suspendeu-a no ar, abriu a porta com um pontapé e num piscar de olhos a pôs para fora do quarto ante os acompanhantes aflitos e estupefatos.

– Saiam vocês também! O que tenho de fazer não é para ser visto por mais ninguém!

O marido quis protestar.

– Mas…

– Não tem mas, nem meio mas. Se quiser voltar a ver tua Palmi-xin e a criança vivas, saia já! Já! Já! Não há tempo a perder!

Assustado, ele puxou o cunhado pela mão e saiu. Kopinani aproveitou a deixa para tentar meter o pé na porta. Tiakat lhe desceu o calcanhar no pé descalço, bateu-lhe a porta na cara e passou a tranca.

Sua obstinação por salvar a paciente não era só profissional, gostava muito da moça. A maioria dos senzares de Raltlor, a vila no alto do morro, tinha em baixa conta os tlavatlis de Tochiwayo, a aldeia de baixo, mas Palmi se dava bem com Tiakat e seu povo desde as noites de luar junto ao lago, quando Tiakat brincava de pular carniça e agarrar o par com seu bando de amiguinhos da mesma idade na aldeia. Os únicos senzares no grupo eram Palmi e seu amigo Sistu. Ah, e Artás, mas ela só descia por causa de Sistu. Ahatsunu e Beletsunu também desciam da vila, mas elas também eram diferentes, eram caris. Como era gostoso, aquele tempo!

Palmi quis casar-se com Nopaltin, mas cedeu ao clã, horrorizado ante a perspectiva de acolher um tlavatli em suas casas e ver um mestiço usar o nome Ralfu. Tornou-se esposa de Zindé, um senzar bronco e pouco atraente, mas que a adorava e era bondoso e compreensivo. Ela ainda amava o primo de Tiakat e o encontrava com frequência. Teria sido melhor para Palmi se o filho fosse de Nopaltin, pensou Tiakat. Ela era pequena e delicada para uma senzar, mas Zindé era quase tão grande e robusto quanto Sistu, apesar de nada ter de sua agilidade e inteligência.

Ela suspirou e respirou fundo. Reuniu mais axé ao encantamento para conter hemorragias e a concentrou nas mãos, que brilharam suavemente na penumbra. Decidida, tomou uma faca afiada e abriu a barriga da moça, logo acima do púbis. Nunca fizera ou vira alguém fazer coisa assim. Apostava em uma teoria sobre a qual havia lido há tempos.

A pelve era estreita e a bebê, além de ser grande, se enrolara no próprio cordão umbilical e estava em uma posição atravessada. Mas estava bem viva, apesar de um tanto surrada. Tiakat aplicou-lhe respiração boca a boca e ela chorou com vontade.

A parteira sentiu o alívio das mentes aglomeradas do outro lado da porta, mas faltava o mais complicado. O útero estava lacerado, uma artéria rompida. Os encantamentos ensinados por Kopinani haviam retardado a hemorragia sem curar os ferimentos. Mas agora Tiakat podia ver e tocar os órgãos feridos e a magia podia ser mais eficaz.

Podia sentir suas forças serem drenadas pelo esforço, mas também o resultado positivo. Foi até o fim e usou as últimas reservas para fechar o corte, que sumiu sem deixar marcas. Percebeu a aura, o pulso e a respiração da moça começarem a se normalizar e deixou-se cair sentada no chão, exausta. Alguém batia desesperado à porta, mas Tiakat, atordoada, custou para levantar-se e abri-la. As paredes giravam à sua voltam, demorou a encontrar a tranca.

– Calma. Palmi-bã e a bebê estão bem.

Revirou os olhos e o corpo esbelto se derreteu nos braços da mestra perplexa. O tio da moça ajudou a ampará-la e deitá-la na esteira, enquanto o pai corria para ver a esposa e a filha recém-nascida. Kopinani ajudou-o a banhar a bebê e despertar a mãe. Explicou-lhes como seria o perfil astral daquela criança nascida no dia nove de Sementes, ano do cão, dia de tartaruga. Depois foi ver Tiakat, já sentada e massageando a cabeça dolorida.

– Que louca me saíste! Isso não se faz! Não sei se te mato, te expulso ou te beijo!

– Ela está bem, não está?

– Melhor do que nós! Já está dando de mamar! Mas tua carreira podia ter terminado aqui!

– Se não pudesse salvar minha amiga, para que serviria essa tal de carreira?

Antes que Kopinani conseguisse pensar em uma resposta, o pai da criança se aproximou.

– Tiakat-ké, preciso me desculpar. Por um momento, pensei que você tinha ficado maluca. Não sei como conseguiu, nem como agradecer, mas muito obrigado.

– Não se preocupe, Zindé-bin, só fiz o meu trabalho. Vocês já escolheram o nome?

– Sim, vai se chamar Riama.

– Bonito, gostei. Zindé-bin, por favor, me dê licença. Estou exausta e preciso de ar fresco.

– Claro, Tiakat-ké. Mas deixe-nos pagá-la. Eis aqui um ás meu e um de meu cunhado, conforme o costume.

– Obrigada.

Tiakat guardou as duas moedas na bolsa e dela tirou sete ticais para pagar o terço devido a Kopinani pela supervisão, que os aceitou, calada e pensativa. A moça então amarrou a bolsa no cordão da cintura e pisou, cansada, mas orgulhosa, o calçamento de pedras irregulares das ruas de Raltlor. O sol já ia baixo no horizonte. Passara mais de uma noite e um dia numa luta de vida ou morte. Não era à toa que se sentia tão cansada.


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2 Respostas para
     “Um dia de trabalho duro”

  • mitopoese disse: 15 de maio de 2010

    Primeiro capítulo de Crônicas de Atlântida: O Tabuleiro dos Deuses, romance ainda não publicado

  • Ana Merege disse: 15 de maio de 2011

    Já tinha lido o início do teu livro. Se não me engano teve pequenas mudanças, mas promete grandes viradas. 😉

    Muito sucesso pra vocês dois!

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